"A saga da serpente de ferro"
Até 1853, o Paraná fez parte da então Província de São Paulo, conseguindo naquele ano a sua emancipação, com a criação da nova Província do Paraná, ficando a cidade de Curitiba como a capital. A economia da nova província era baseada na indústria do mate, cuja principal fábrica ficava em Morretes e era exportada pelo porto de Paranaguá, ainda localizado às margens do Rio Itiberê, mas que, devido ao assoreamento, foi aos poucos transferido para o Porto do Gato (depois D. Pedro II), onde se localiza atualmente.
A nova província não podia ficar à margem do progresso nacional; as taxas cobradas pela exportação do mate, via porto, eram onerosas, e, por isso, as lideranças locais decidiram lutar pela construção de uma ferrovia, que ligaria o litoral com Curitiba. Mas então surgiu o ponto nevrálgico: qual seria o ponto inicial da ferrovia, Paranaguá ou Antonina? É aqui que começa a nossa história.
O escritor e pesquisador Alexandre Santana, de Paranaguá, em seu livro “A saga da serpente de ferro – Uma história sobre a origem da Província do Paraná” (Opera Editorial, 2025), nos conta em detalhes essa fascinante história, que, pelos aspectos que envolveram a construção desse ferrocarril, assemelha-se realmente a uma saga, até mesmo pelas reviravoltas folhetinescas.
O ponto de discórdia foi justamente de onde partiria a ferrovia. Houve uma disputa acirrada entre os conservadores de Paranaguá, liderados pelo poderoso comendador Manoel Antônio Guimarães (Barão e depois Visconde de Nácar), e os liberais de Antonina. Note-se que naquela época a política do Segundo Império era dividida entre o Partido Conservador e o Partido Liberal.
O Imperador D. Pedro II era favorável ao pleito de Antonina, pela comodidade de seu porto e pela Estrada da Graciosa, que já estava aberta, por onde seguiam em carroças as sacas do mate para Curitiba. Mas a elite parnanguara, tendo à frente o Visconde de Nácar, certamente o homem mais influente da província, que ocupava o cargo de vice-presidente da Província do Paraná, lutou para que a ferrovia partisse de Paranaguá.
Inicialmente, a partir de 1868, o projeto da ferrovia ficou a cargo do engenheiro Antônio Rebouças, irmão do ilustre André Rebouças, que optou por Antonina como ponto inicial da ferrovia. Os anos foram passando, o projeto da construção da ferrovia passou por vários revezes, até mesmo quando Rebouças transferiu o projeto ao Barão de Mauá.
A verba inicialmente decretada para as obras da ferrovia foi sendo revista e aumentada a cada ano, mas ainda sem uma definição do início da construção. Por fim, venceu o grupo do Visconde de Nácar, e a ferrovia partiria mesmo de Paranaguá, que já tinha dado início a um ramal entre aquela cidade e Morretes.
No dia 5 de junho de 1880, o Imperador D. Pedro II, em visita a Paranaguá, acompanhado de comitiva, fazia a inauguração dos trabalhos iniciais da construção da ferrovia. No entanto, mais cinco anos transcorreriam para que a ferrovia entre Paranaguá e Curitiba fosse definitivamente finalizada e inaugurada, o que ocorreu no dia 2 de fevereiro de 1885, com a presença do presidente da Província, demais autoridades e do povo em geral.
A ferrovia Paranaguá-Curitiba foi uma notável obra de engenharia, certamente a obra mais importante do gênero no País à época, principalmente se considerarmos os túneis abertos nos morros e os viadutos construídos sobre vãos de centenas de metros acima do nível do mar. Foi um feito de engenharia que entrou para a história, e até hoje uma viagem de trem entre essas duas cidades encanta os viajantes pela beleza dos cenários que se descortinam a cada curva da estrada de ferro.
Felicito Alexandre Santana por mais uma obra histórica, que certamente já entrou para os anais da historiografia paranaense. Santana também é autor do livro “Júlia da Costa – Soluços da minh´alma” (Literabooks, 2023), sobre a vida e obra da primeira poetisa paranaense Júlia da Costa (1844-1911), nascida em Paranaguá.
Contato com o Autor: (41) 9878-5963.

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