"Aconteceu em Cananeia"
Nem só Iguape tem o seu Ídolo (estatueta antropomórfica encontrada pelo naturalista Ricardo Krone, no início do século XX). A “Cidade Ilustre do Brasil” também tem o seu Ídolo (de Carvalho), escritor e pesquisador, autor do romance “Aconteceu em Cananeia” (2006) e de “Cananeia, o primeiro povoado do Brasil – A Saga do Bachael” (2010).
Permita-me o leitor tecer algumas pálidas linhas sobre o romance. Com sua prosa vigorosa, Carvalho, como é mais conhecido na cidade, se releva um escritor de muitos méritos. Consegue prender o leitor desde a primeira até a última página.
O Vale do Ribeira já foi tema de vários romances, em diferentes épocas. O escritor santista Vicente Duarte dos Santos publicou “Enquanto sonham as águas” (1958), que tem sua temática centrada em Iguape e fala também de Juquiá e outros municípios do Vale. Eduardo Rodrigues escreveu “O passageiro do destino” (1995), que tem como personagem principal não outro senão o Bacharel de Cananeia. Por sua vez, o conhecido José Roberto Torero, também santista, em parceria com Marcus Aurélio Pimenta, publicou “Terra Papagalli” (1997), novamente tendo como protagonista o Bacharel de Cananeia. Ou seja, por várias vezes, a nossa região foi enfocada pela pena de escritores “de fora”. Agora, um escritor do Vale do Ribeira escreveu um romance tendo como pano de fundo a nossa região, especialmente a velha Cananeia, de tantas tradições.
A história se passa entre Cananeia, Pariquera-Açu, São Paulo, Salvador e... Moscou! Tem uma mulher maquiavélica, Salete; um apaixonado casal de caiçaras, Léo e Nice; um arremedo de “agente russo”, Anatole; dois empresários não tão honestos, Cadu e Almeidinha; uma criança sequestrada, Lucas; uma rebelião no presídio feminino de Pariquera-Açu; um médico que é feito refém no Hospital Regional do Vale do Ribeira; um fatídico naufrágio de barco pesqueiro, no qual morre toda a tripulação, menos Léo; uma empregada, e cúmplice, Bete, que auxilia a patroa, Salete, no sequestro do inocente Lucas, e ainda tem a maldade de escrever uma carta anônima caluniando a honesta Nice; e... ufa!... haja fôlego para tanta ação e aventura!
Tudo começa quando a maquiavélica e dissimulada Salete sofre um acidente, no qual a sua caríssima lancha bate numas pedras. É socorrida por Léo, que por ali passava com seu barco. Salva pelo bravo pescador, Salete tenta se insinuar para ele; mas não contava com a lealdade do caiçara para com a sua amada, Nice. Desprezada, Salete arquiteta um plano diabólico: o sequestro de Lucas, filho de Léo e Nice. Como uma mulher rejeitada é pior do que praga de sogra, a ardilosa loira (sim, ela é loira – mas nada pessoal contra as loiras, muito pelo contrário!), com o auxílio da não menos maquiavélica Bete, tramam o sequestro do menino, que é raptado pelo “russo” Anatole. O casal Léo e Nice vivem um autêntico calvário e, unidos pelo imenso amor e pela esperança de reencontrar o filho sequestrado, comem o pão que o Diabo não apenas amassou, como ainda pisou em cima.
Para dar um colorido todo especial ao seu romance policial, Ídolo de Carvalho ambienta a história em lugares reais de Cananeia, inclusive com pessoas que realmente moram na cidade. Mesmo sendo uma história fictícia, vemos os personagens almoçar ou jantar nos restaurantes Naguissa do Silêncio, Porto Camarão, Ararapira, tomar uns drinques no Bar da Vila, fazer compras no Supermercado da Ilha. Também saboreamos as deliciosas expressões caiçaras, que pontificam por toda a extensão do romance. Detalhista, Ídolo de Carvalho narra como é feita uma pescaria no Mar de Dentro, como se “desmalha” um peixe, além de nos fornecer ricas informações sobre vinhos finos, iguarias refinadas, e até detalhes sobre armas de fogo. No final do livro, o autor incluiu um interessante glossário, onde as palavras “estranhas” (principalmente as expressões tipicamente caiçaras) podem ser consultadas.
Ídolo de Carvalho reside em Cananeia, onde divide seu tempo entre aproveitar as belezas sem fim da cidade e estudar a História local, principalmente o misterioso Bacharel de Cananeia.
(Crônica publicada no "Jornal Regional", de Registro (SP), em 2006).
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