Quando éramos felizes

 Na TV Excelsior era exibida a novela “Dez Vidas”, com Adriano Reis. O título, acredito, fora tirado da famosa frase “Dez vidas eu tivesse, dez vidas eu daria”, atribuída ao Mártir da Independência, Joaquim José da Silva Xavier, de alcunha “Tiradentes”. O televisor era em branco e preto; a TV em cores só chegaria anos mais tarde. No horário vespertino, assistíamos na TV Tupi, ou na ainda iniciante Globo, os desenhos de Tininha, Brotoeja, Bolinha, Flinstones, Pernalonga, Pica-Pau, Patolino. Os seriados eram “Roy Rogers”, “Bonanza”, “Perdidos no Espaço”, “Terra de Gigantes”, “O Túnel do Tempo”, “Missão Impossível”, “Chaparral”, “Tarzan”, “Zorro”. Dos desenhos animados japoneses tinha predileção por “Speed Racer”. 

Ainda me lembro da novela “Pingo de Gente”, exibida pela Tupi, que nos emocionava até as lágrimas. Eu torcia pela Tupi, não gostava muito da Globo; achava-a um tanto pretenciosa. Certa vez, a Tupi ganhou o prêmio da APCA (Associação Paulista dos Críticos de Arte). Fiquei feliz com esse título. Logo em seguida, a Globo ganhou o Salute, bem mais importante que o prêmio da Tupi. Mas não se pode negar que as novelas da Tupi, nesse período, eram melhores que as da Globo. Quem não se lembra de “Mulheres de Areia”, “O Machão”, “O Profeta”, “Aritana”, e outras, que prendiam todo mundo à frente do televisor? Hoje sei que essas novelas eram bastante artesanais; mas naquela época provocaram um impacto danado! 

O grande salto da Globo parece que foi mesmo a partir de “Gabriela”. Tínhamos em casa a coleção completa de Jorge Amado, que meu pai comprara de um amigo. Tão logo começou a ser exibida a novela, peguei o respectivo livro na estante e passei a devorá-lo. Estava eu ali por volta dos meus doze para treze anos. Foi quando tive contato, pela primeira vez, com o universo de Amado, que, por essas ironias do destino, nunca ganhou o Nobel. Quem sabe por que a Academia Sueca não gostava de comunistas? Ou por que a literatura brasileira nunca foi suficientemente digna para merecer semelhante prêmio? Não sei. Só sei que nem Drummond, nem Cabral, nem Rosa, nem qualquer outro brasileiro, até agora, logrou abiscoitar o Nobel. Talvez quem hoje tenha condições de consegui-lo seja Paulo Coelho, não necessariamente pela importância de seus textos, mas por ser um dos escritores mais lidos do mundo, e tratar em seus romances de temas universais, como o amor, a amizade, o ódio, a guerra, a busca interior, e coisas do gênero. 

As bebidas da garotada eram “Crush” e “Choco Milk”, que eu apreciava. Dos jogos, quase todos praticados nas ruas de terra, a molecada divertia-se com os jogos do boque, taco, meia-a-mãe, amarelinha, futebol, empinar pipa (que chamávamos de papagaio). Muitos meninos gostavam de passarinhar; iam buscar barro na Fonte do Senhor para fazer as pelotas. Certa vez, meio que sem querer, mirei numa bananeira e derrubei um sanhaço. Fui ver o resultado da minha malvadeza: o passarinho tinha morrido! Só sei que fiquei triste por vários dias... e nunca mais passarinhei! 

Das revistas em quadrinho, além da patota Disney, gostava da Turma da Mônica e das revistas da EBAL (lembram dela?). Agora, o que eu gostava mesmo era de “Tex”, publicado pela Editora Vecchi. Tinha especial preferência por essa revista, principalmente quando os desenhos eram feitos por Gallepini, que assinava simplesmente Gallep. Tinha uma caixa onde acondicionava nada menos do que mil gibis, de todos os tipos e gêneros. Numa mudança de casa, não sei que fim levaram. Sobrou apenas a coleção de “Tex”, perto de duzentos gibis, que guardo até hoje como verdadeiras relíquias de minha infância e adolescência.           

Eu era feliz e não sabia.




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